Quando penso nos perfumes que marcaram a minha juventude, Fahrenheit, lançado em 1988, está claramente no topo da lista. Um perfume marcante, reconhecível entre todos os outros perfumes que existiam, pela sua expressividade própria, quente, extraordinariamente envolvente e, no meu caso, pelas boas recordações que me evoca.
Fahrenheit faz parte da história da perfumaria. Não só porque se encontra na lista dos perfumes mais vendidos no mundo, mas porque a razão do sucesso se sustenta numa base de madeiras, com um conjunto de flores em que se destacavam as folhas de violeta. Uma relação aparentemente estranha ou contraditória, mas explosiva. Aliás, todo o perfume manifesta-se numa dicotomia permanente – quente/frio e poderoso, doce e selvagem. Esse é sem dúvida um dos segredos do sucesso deste perfume.
Na senda do sucesso inicial foram, entretanto, lançadas algumas extensões como Fahrenheit 32, em 2007, mais doce e picante que a composição original, Fahrenheit Absolute, mais oriental e aromático graças às resinas e à madeira de oud. Na minha opinião a composição inicial continuava a ser a referência, apesar de a sentir bastante ancorada a uma fase extraordinária da minha vida. Até hoje. Até ao aparecimento de Aqua Fahrenheit. Não sei se porque mudaram os tempos e as vontades, se simplesmente Fraçois Démachy , perfumista da Casa Dior teve o seu raio de luz.
O conceito de contradição ou atração de opostos é recuperado. Uma união perfeita entre a Água e o Fogo. Da fórmula inicial mantém-se a violeta e as notas amadeiradas, e com isso o carácter próprio e muito distintivo de Fahrenheit. Mas esta nova proposta não é apenas uma actualização de uma fragrância masculina mítica. Com uma atitude mais fresca e citríca Aqua Fahrenheit pisca o olho a novos seguidores e estende a mão a aqueles que se mantiveram fiéis e mudaram os seus gostos e hábitos com o passar do tempo.
E apesar de o início ser explosivo e quiçá ligeiramente agressivo pela presença do aldeído, a experiência olfactiva seguinte é muito boa. Começamos por sentir as notas frescas da tangerina e da toranja, esta última em substituição da bergamota, mais doce e redonda, numa relação que acentua o espírito cologne.
Segue-se a violeta, evidente como na fórmula inicial e que se conjuga com a hortelã-pimenta do Brasil, numa relação de opostos muito feliz e cheia de vida. Da composição original sai a noz moscada e o cravo, facto que torna a fragrância mais leve e fresca. O final destaca-se uma vez mais pelas notas amadeiradas as quais numa relação perfeita com o vétiver do Haiti fecham o perfume com tranquilidade. Percebo a ausência do patchoulli e do couro, embora sinta falta da sua referência mais intensa, envolvente e rica, como a que ambos conferiam à versão original de Fahrenheit.
Aqua Fahrenheit é um perfume especial não só para os fiéis à composição incial, como para aqueles que procuram um perfume próprio, com carácter e expressão.